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Memórias de uma saudade.
O que exatamente seria a realidade além do momento que nos envolve? Um contexto definido por condições específicas onde habitamos e chamamos de hoje ou de tudo aquilo que nos construiu no trânsito do tempo? As condições e contradições surgiram e foram assimiladas, geraram convicções e lembranças, houve especificação de atributos conceituais e específicos em relação a textura temporal daquele momento, ou no mínimo ocorreu a impressão harmoniosa dos sentimentos e sensações que vieram a construir seu acervo de experiências que hoje se traduzem em você. As agonias, o medo, a dor, as alegrias e o júbilo se apresentaram para essa obra arquitetonicamente estruturada em desafios, medo e ousadia entregue ao diapasão do destino para assim adquirir a qualidade necessária ao impossível. Há quem consiga se abrigar na dor, outros na ousadia, e tantos no pressentimento. A alma tem objetivos e metas interessantes, e a ela são entregues os desafios e as oportunidades para adentrar a vida e nela se realizar ou se perder. Escolha com sabedoria seu propósito, na verdade, sempre tenha um objetivo. Seu alcance, a profundidade que atingirá seu mergulho dependerá muito disso, dessa bussola que lhe guiará entre os termos contraditórios de existir. E isto começa muito cedo, caso tenha sorte de nascer onde bons parâmetros são ensinados tudo fica mais fácil, mas nem sempre isso acontece. Há ocasiões onde se faz necessário usar o conteúdo que vem conosco, um guia pessoal de sanidade para sobreviver se possível dentro de situações de desequilíbrio situacional na estrutura do ambiente onde surgimos. Pois cá estamos imersos nessa surrealidade brutal, que faz brotar o desejo de retroceder no tempo, onde o mundo era mais amigável com o correto, e não abrigava de bom grado a insanidade. Vontade de brincar novamente com o barro da pracinha em obras e criar estruturas aleatórias obtidas através da memória dos quadrinhos que lia na ocasião. Escutar novamente a água da chuva bater e escorrer pela telha de zinco e sentir o cheiro de terra molhada que sempre precedia a chuva. Tempos difíceis, tempos adoráveis, numa mistura de sensações onde a diversificação de proposições corriam e se misturavam na multiplicidade das mais variadas circunstâncias eventuais. Onde hoje percebo que o homem não precisa de quase nada para ser feliz. Um teto para se abrigar, comida para se saciar, saúde e um leito para dormir, a sutil complexidade desses atributos oferecem tudo o que precisamos, Nas ruas, o bonde passando e triturando o vidro para o cerol das pipas, na igreja, aquele bolo gostoso nas quermesses costumeiras em datas especiais das igrejas. Não possuir nada e ter tudo ao mesmo tempo. Conflitos situacionais? Pois é, em tudo há problemas se resolvermos procurá-los. Está na natureza humana com sua característica curiosidade procurar com afinco uma tribulação para chamar de sua. Sem isso, a vida parece não ter graça, ser monótona e vazia de sentido. Para nós o contratempo sempre impulsiona o desejo, a vontade de ser e querer mais. Graças a isso evoluímos, da inocência escapamos e na turbulência comportamental buscamos o sucesso. Depois de um certo nível não tem mais como retroceder, você já se transformou em algo diferente, se incorporou a estrutura da insanidade, e por este perfil lutará sem arrependimentos até que vença ou seja derrotado. Você agora é apenas mais um no teatro de operações, cuide-se e respire essa atmosfera carregada de sentidos oblíquos e enganadores. Você terá de se alimentar disso e conseguir não a ela pertencer. A angústia proporcionará desassossego, mas procure transformar em placidez o medo que se oculta nos detalhes. O mais importante é pertencer a si mesmo, continuar no controle de sua vida, e se muitas vezes tiver de se vestir de palhaço para se adequar ao ambiente não se ressignifique apenas por isso, se a ocasião pede então ofereça o que você tem também de ilusão. A proposta está em se confundir com o ambiente, ser momentaneamente mais um deles para não ser como eles. Os imbecis gostam da liturgia padronizada da querência onde o gado sempre volta para pastar. Atribua-se nesse momento um volume de nostalgia para reviver naturalmente aquele cheiro de terra molhada onde uma inocência produziu memórias para toda uma vida. Ortega y Gasset afirma: “Ao nos percebermos e nos sentirmos, tomamos posse de nós mesmos, e esse estar sempre em posse de si mesmo, este assistir perpétuo e radical a tudo que fazemos e somos, diferencia o viver de tudo o mais”.
Porque tudo mais seria loucura, desequilíbrio e decrepitude situacional da própria existência. Não se perca na fantasia da artificialidade concreta da ocasião, a ilusão é um truque perspicaz do mal para capturar os incautos e desprevenidos. Deixe a sagacidade da perversão para quem a aprecia, Ortega y Gasset conclui: “O louco ao não se saber a si mesmo, não se pertence, foi expropriado; e expropriação; passar a posse alheia, é o que significam os velhos nomes da loucura: alienação, alienado; dizemos “está fora de si”, “já foi”, entende-se, de si mesmo; é um possuído, entende-se, possuído por outro”. Hoje temos muitos expropriados de si, pertencem ao outro ou outros, por política, religião ou afinidade de propósitos. Ao renunciar a si mesmo, a se coletivizar, o homem se transforma em massa e perde sua identidade original. A partir desse ponto passa a ser um objeto de manipulação para vários propósitos e é incapaz de oferecer um raciocínio plausível de contestação ao que se cria a partir dele. A mente coletiva está subjugada ao seu manipulador, ao administrador da massa, não há espaço e nem é aceitável o contraditório, a argumentação dialética. O feitor do grupo determina o destino de todos e como irão agir e se conduzir dentro da circunstância que parecer favorável e boa para o capataz, e não necessariamente para o grupo. O grupo pode ocasionalmente ser sacrificado por alguma causa interessante para o dono do rebanho humano. E apenas isso já indica que essa condição não é boa para o indivíduo. É realmente isso que você quer? Perder sua capacidade de decidir seu destino? Resgate suas memórias e tenha realmente saudade delas, de um tempo que você era livre, mesmo sendo tão dependente. Qual o motivo de se submeter a um cacique político e a ele prestar culto? Está devendo dinheiro a ele ou pertente lucrar com isso? A submissão cobra seu preço não se permita assumir esse papel aviltante.
Gerson Ferreira Filho.
Citação:
Lições de metafísica. José Ortega y Gasset, Vide Editorial.
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