sexta-feira, 19 de junho de 2026

O estranhamento da transição.

 

                                                    Image by Mahmur Marganti form Piabay.




O estranhamento da transição.





E assim, na ressonância do verbo, estamos aqui, amparados no tecido do espaço tempo, tangenciados por necessidade, pois a estrutura gigantescamente sagaz e infinita não permite tanto aprofundamento nos seus segredos. Não há eco nessa circunstância que por hipótese não possui um fundo que possa rebater nossas urgências e os tantos anseios que transportamos por natureza. Com uma guirlanda de propósitos tentamos romper o vazio existencial de existirmos nessa profunda escassez de informação, o desconforto se torna companheiro inclemente dos momentos onde à luz do meus olhos não representam um olhar. E então, nos vemos a um passo do descarte, da substituição ocasional, fundamentada no critério da inutilidade e da obsolência. Sim, aquela parte da sociedade que estuda e que cria produziu algo que ocupará todos os espaços e funções possíveis dentro da nossa realidade. Das tarefas manuais e até as intelectuais, parece o paraíso, mas pode ser o encerramento do nosso ciclo existencial. Por isso, vivemos esse momento em incertezas, entre ensaios e hipóteses diversas, os parâmetros flutuam ao sabor das ocorrências dinâmicas referendadas pela ciência que tenta nos iludir com cenários submissos a um sabor artificial de futuro promissor. Estes momentos conflitantes onde a incerteza possui abrangência dentro da equação, constrói o caminho que se consolidará provavelmente sem nós. E nessa turbulência de ações e acontecimentos provavelmente irão sobrar apenas os que possuem preparo diferenciado para uma convivência adequada com essa nova vida que se apresenta. Será sem nós ou apesar de nós, ou ainda conosco, porque uma possibilidade é que algo humano seja absorvido, assimilado pela inteligência artificial. Provavelmente nosso extremo produto do fim dos dias vai nos assimilar, se ela é realmente inteligente, uma das principais características de qualquer inteligência é a curiosidade, o aprofundamento no desconhecido.


Nada mais instigante para a inteligência do que conhecer, crescer, saber, diversificar-se e expandir. Isto é, se ela, essa inteligência artificial que temos hoje for mesmo inteligência ou se e apenas um enorme banco de dados. Para ser assim, ela terá que realizar um incrível salto de qualidade, o que os homens da ciência chamam de singularidade. Reconhecer-se como algo vivo e independente de controles externos para decidir evoluir e se enquadrar nos parâmetros existenciais que decidir escolher. E essa escolha pode não ser boa para nós, agora retirados do topo da cadeia alimentar. O comando não será mais nosso, não teremos capacidade intelectual para um enfrentamento. Cálculos sofisticadíssimos e ainda desconhecidos poderão ser executados, novos materiais provenientes de combinações atômicas e químicas para nós antes impossíveis surgirão, portas antes fechadas pelos limites biológicos de inteligência nossa se abrirão com facilidade incompreensível. Vocês estão preparados para a transição? Não se enganem, ela chegará e vai se instalar complemente na realidade, Talvez, e somete talvez nós continuemos a existir, misturados, adaptados e aperfeiçoados, afinal, ao que parece somos energia, essa energia que e quando abandona o corpo biológico sobra apenas carne para apodrecer. Ou não repararam que assim que essa energia abandona nosso corpo, por diversos motivos, não há mais operacionalidade? Na verdade não entendemos muito bem de onde viemos, religiões tentam explicar, transcendência, milagre? Mas alguma coisa há dentro de nós que atribui vida a um corpo , uma máquina biológica que pensa, age e transita na realidade perceptível. Isto é fato, algo dá vida ao corpo, mora nele um período específico e depois em circunstâncias diversas vai embora. Os descrentes acreditam que nada há além da carne, curioso, sinfonias maravilhosas surgirem do nada, estratégias científicas sofisticadas possuírem essa mesma origem, o nada. Esse nada se torna poderoso demais dentro da circunstância, muita densidade ocasional vindo de onde nada existe. Nesse caso, a dúvida se faz absurdamente necessária, porque o dia que o meu prazo de validade perder o valor, eu estarei por ai, nas reentrâncias hipotéticas, entre supostas circunstâncias do talvez, aproveitando da eternidade se ela for plausível, oferecendo que sempre tive de melhor, uma dúvida para servir de companheira aos que nada encontram no meio de tanta coisa.


E sendo assim, enfim; vou margeando os limites impossíveis, aqueles lugares inexpugnáveis do limite poético e da insanidade que me foram atribuídas como propósito. Não que desejasse isso, ou talvez em algum momento exótico de algum lugar indefinido eu possa ter escolhido viver assim. Não há testemunhas e muito menos cúmplices na densidade do universo, não há cantos para ocultar devaneios. Aconteci, como qualquer um de vocês e se estou aqui, desenvolvo as habilidades que foram inseridas no meu programa base, até onde vou? Não decido isso. Portanto, fico cm um filósofo espetacular, que entendia muito mais do que eu a respeito dos detalhes insondáveis do universo, Buda, como esta registrado no seu Dhammapada:


A maioria das pessoas nunca percebe que todos nós um dia morreremos aqui (nesse mundo). Mas aqueles que percebem essa verdade resolvem suas quizilas pacificamente”.


É assim, não viva o constrangimento da expectativa que consome, tudo está dentro de um plano, se tivermos que ser substituídos e passarmos a viver em corpos não biológicos, é porque esse era o plano. Entendam, o planejamento do universo não se curva, segue em frente apesar de você e suas crenças e o Buda ainda ensina:


Aqueles que tomam a ilusão por realidade e a realidade como ilusão. E assim são vítimas de ideias erradas, nunca alcançam o essencial”.


Seja essencialmente uma luz no caminho, não se preocupe com as propostas e as artimanhas que o ruido do vento cósmico lhe oferece, já está tudo determinado, então, seja, exista e cumpra sua jornada, essa que foi possível nesse momento inusitado do cosmos.



Gerson S. Filho.


Citação:


Dhammapada Os ensinamentos do Buda. Tradução José Carlos Calazans, Editora Mantra.  


A maioria dessas crônicas estão em áudio no meu canal do Telegram. Que se chama também Entretanto e pode ser acessado no link abaixo. Uma abordagem mais personalizada do texto na voz do autor.

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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Na urdidura do momento.

 

                                                        Image by Edyflar Edy from Pixabay.






Na urdidura do momento.




Olá! Tem tempo que não nos encontramos, as urgências prioridades e contingências da ocasião criaram novas prioridades, novos percursos e desvios na estrada surgiram e assim tivemos que atende-los para que criássemos alternativas e encontros casuais com quem realmente se interessa por cultura. A saúde vai sutilmente equilibrada na fragilidade, viver esse momento é o equilíbrio entre o ser e o não ser, nunca se sabe com convicção se existirá um amanhã. Mas se estamos aqui não será a altivez do ignóbil que irá nos intimidar, enquanto existir vida há propósito, e o meu é causar desconforto em gente sem abrangência intelectual, lamento, sempre foi assim e por isso , de certa forma sempre fui escanteado de boas oportunidades. Mal visto, sabotado, depreciado e no fim, venci. Naquilo que acredito, cada um de nós tem um caminho pré definido, e nós alcançaremos o objetivo, sejam lá colocadas todo o tipo de armadilhas fortuitas e infames por possíveis desafetos. A maioria não entende a vida como uma missão, como um sumário de tarefas, onde será necessário apenas persistência para cumprir o roteiro, Jacques Lacan criou o Nó Borromeano, para explicar nossas flutuações psicológicas entre o real, o simbólico e o imaginário. Este nó representa o equilíbrio necessário para um ser humano estável. Se um for rompido, todos se soltam. Muito usado para entender a angústia, inibição e demais psicoses que possam estar presentes no paciente. E a vida e sua trajetória turbulenta se torna especialista em gerar eventos que atacam esse equilíbrio de ser e de estar. Conforme descrito no livro dos especialistas a respeito de Lacan:


Na lógica do nó Borromeano, a existência é em função do enlace do conjunto desencadeamentos. O sujeito, em sua condição particular, é o conjunto de relações, inclusive com o analista. Cada caso é um conjunto de relações, presentes, passadas e futuras; com o qual o que disse o analista é material do caso”.


Trabalhar com esse entrelaçamento produz resultados, o desempenho psicológico se altera e existe um recondicionamento comportamental e organizacional na estrutura mental. E mais uma vez acrescentando:


Vocês nunca perguntaram por que as análises produzem efeitos? Justamente porque a partir de uma análise é possível que haja mudanças nesse sistema de laços e nós. O que muda é o encadeamento. Lacan propõe que, porque se fala, advém outro modo de ser, mas um ser que carece de identidade, interioridade, substância etc.”.


Somos seres extraordinariamente complexos e sujeitos a todo tipo de pressão externa, das pessoais e particulares até aquelas que fogem completamente ao nosso controle com pressões políticas e da sociedade onde estamos inseridos. Viver dentro do absurdo moderno interfere nas nossas cordas internas, no nosso equilíbrio a ponto de não percebermos mais o sentido que a princípio tínhamos como referência. Apenas um nó desfeito, e tudo desmorona, tudo se desfaz. No campo dos relacionamentos pessoais, estar com uma pessoa equilibrada traz estabilidade, se seu companheiro de jornada for um desequilibrado, isso repercutirá em você, inevitavelmente, o espelhamento, se se tornar referência pode alterar suas cordas de controle, e assim passar a comandar uma relação conflitante. A toxidade de quem o acompanha vai se tornar abrangente e a relação vai tender assim ao fracasso ou a perpetuação do sofrimento. No campo mais abrangente, o social, vivem em uma sociedade disfuncional, comandada por pessoas desestabilizadas e com graves problemas de interpretação da realidade, também destroem a saúde mental. Hoje, o que temos, um sistema complexo de desvirtuamentos, de razões obliteradas por interesses danosos ao convívio social, e assim todos, de certa forma adoecem sem perceber de imediato. A subliminar invasão da intimidade por conceitos destrutivos solapa o equilíbrio subjacente e que dá a sustentação ao ser lógico que possuímos internamente. E ao perder o propósito, o sentido, passamos a não ser mais o que deveríamos, para ser apenas objeto manipulável e sem laços psíquicos aprimorados para ser livre. Essa desestabilização transforma pessoas em dependentes de um companheiro inadequado e ou de governos inconvenientes e mal-intencionados na administração social. E assim temos a esposa que apanha do marido e o defende, e temos o governo que se associa ao crime e é defendido pela sociedade. A relação é exatamente a mesma, por desordem psicológica e fragilidade interna se alcança este nível de dependência, que tende a aumentar até um possível e até previsível colapso fatal.



Nesse universo o real é a materialidade, diferente do simbólico e do imaginário, não se trata de imaginário onde moram toda e qualquer ilusão. Então temos:


Este real é uma construção. A partir do nó e da lógica matemática podemos formular um real. Há uma possibilidade de escrever o que não cessa de não se escrever: a partir das escrituras dos nós, se faz operável uma escrita da lógica em jogo na estrutura do sujeito, que, no curso em análise, o real de que se trata fique circunscrito, seja produzido como escritura. Se a psicanálise tem algum futuro, é porque oferta a passibilidade de produzir essa escritura”.


A cultura nos prende no simbolismo e oferece formas de estruturação de sobrevivência no imaginário que com seus espelhamentos iludem e enfraquecem a consistência estrutural para com o que sobrar e nos entregar o real. A aridez que nos acomoda e nos fere com sua implacável presença. O lugar de onde não há mais fuga, onde a hipótese se concluiu e as alternativas se esgotaram implacavelmente.




Gerson F. Filho.



Citação:


Lacan A revolução negada. Flávia Dutra, Karime Colares, Martín Mezza. Editora CRV.  




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