domingo, 5 de dezembro de 2010

Contextos da usura parte sete.



Sorria e dance com o encardido no mormaço.


Sublima na hora o suor que cai a terra naqueles dias de verão. Telúricas ondas são vistas dançando sobre a paisagem, que parece evaporar sob o sol impiedoso. Seria seu efeito aquilo que concentra o doce da cana, aquilo que faz do homem tão fervoroso ser no controle das suas posses? Faltava ali o frescor do equilíbrio, aquela aragem a refrescar o raciocínio. Leogácia viveu ali a maior parte da sua vida. No chão ressecado e poeirento plantou e colheu. Chorou e sorriu, e também viu o tempo ser consumido entre trapaças astutas que lhe trouxeram dinheiro, mas tornou seu corpo inconsistente. Para ela o limite teria ficado a quilômetros para trás.


Certa vez, ela, Leogácia fez negócio com um rapaz. Ele possuía um terreno, e ela uma moenda de cana. Acreditem ou não, ela conseguiu trocar a moenda pelo terreno. Bem; não sabia ela que o terreno provavelmente valia menos do que a moenda. Quando soube ficou enfurecida. O tal terreno ficava lá nos lados de Deus me livre, sem nenhuma estrutura, seu preço poderia ser comparado talvez nos dias de hoje a quatro cestas básicas. Não pensem que ela iria ficar com o prejuízo. O tempo passaria, mas dívida para Leogácia não envelhecia.


Para ela trapo e prego são sempre amigos. Sua filha mais nova Ludimila, aquela que fazia o trabalho pesado, a mesma que era surrada constantemente sem nenhuma razão aparente - somente aparente - porque Leogácia sabia muito bem porque fazia isso. Foi presenteada com o dito terreno. Presentão! Não valia nada, mas servia para jogo de cena. Afinal aquela era a filha mais dedicada, à custa dela Leogácia tinha economizado muito dinheiro que pagaria a pedreiro, servente pintor etc. Por que não fazer uma média utilizando nada? Para ela filhos só tinham valor se representassem lucro ou vantagem, como Ludimila havia casado e se mudado bastava por momento o engodo.


Mais de uma década se passou e Deus se lembrou de Deus me livre aquele lugar remoto na beira do nunca vi. Aquele lugar que valia o mesmo que político passou a ter importância. Tornou-se finalmente alguma coisa possível de ser transformado em um bom dinheiro. Ludimila nunca passou o terreno para o seu nome, a escritura, o serviço de cartório e mais o custo do deslocamento valiam mais do que o objeto em questão. Adivinhem o que Fez Leogácia? Tomou o terreno da filha alegando ter que ajudar a um neto um tanto destrambelhado que não conseguia manter o prumo na vida. Não venha sorrir para o demônio porque ele vai devolver o sorriso e se interessar por você.


A desgraça procura quem clama por sua companhia. Ludimila sabia que tudo aquilo não passava de outro jogo sórdido de sua mãe, portanto não esquentou a cabeça, quer ajudar quem não merece, então que ajude, afinal de contas, como prêmio, Leogácia vivia cercada de aproveitadores, e mesmo sendo muito esperta ninguém vence sempre. Quanto mais armações ela fazia, mais apareciam problemas para comer o dinheiro amealhado de forma maldita. Uma vida infame ela já levava. O jeito era deixar o destino cumprir seu curso, se meter nisso só atrairia coisa ruim. Distância da escuridão seria o melhor a ser feito. Apenas prontidão nas proximidades em caso da mãe precisar de ajuda, e mesmo assim se ela aceitasse.



Gerson F. Filho.


Contextos da usura. Sexto episódio.










Salgue sua vida com o açúcar da planície.


As sarjetas ao redor do mercado exalavam o cheiro característico de final do dia no mercado de peixes. A fragrância do entardecer naquele dia de calor sufocante era cortada com rispidez pelo corpo suarento de Jaconildo. Andar elétrico voltava para casa após conferir o andamento dos negócios no mercado. Um momento de prazer quando as vendas iam bem, o momento de ranger os dentes quando o movimento era fraco.


Então lá ia ele na sua bicicleta velha costurando os obstáculos e as armadilhas das ruas que a prefeitura insistia em não resolver. Sabem como é: cidade sem recursos, petróleo não dá lucro. Tinha que ser rápido porque na sua casa Leogácia o aguardava. Depois de anos passando ao puro café ralo e pão para guardar dinheiro, ela já não possuía massa muscular e estrutura óssea para sustentar pequenos passeios pelo interior da casa. Isso era preocupante.


Não seria a primeira vez que encontraria a velha Leogácia esparramada no chão sem poder se levantar, entre o quarto e o banheiro, nadando nas necessidades que não podiam esperar para encontrar a saída. Poderiam pagar alguém para cuidar dela? Claro! Mas imagina se iam fazer isso, nem ele e muito menos ela desejariam isso. Desperdício de dinheiro. A água lava tudo pensavam. Mexer nas economias dói muito mais do que um tombo de vez em quando.


De tanto fazer corpo mole e, vistas grossas, Jaconildo conseguiu que o filho mais novo de Leogácia iniciasse uma ajuda. Ela já estava se tornando muito cara para seus parâmetros, tinha que dividir essa carga com alguém. Olivário era o nome do caçula, aquele que segurou o rojão. Não pensem que era má vontade da família, se dessem dinheiro eles juntavam, se contratassem alguém para ajudar eles dispensavam porque consideravam desperdício. Qualquer moeda que caísse do bolso naquele lugar não chegava ao chão.


No final Olivário apenas colhia alguns frutos plantados no passado. Afinal ele tinha o sangue de Leogácia, não ia ficar sem passar a perna na própria mãe algumas vezes. Retorno agridoce, um pouco de sal no melaço grudento daquela relação. Negócios são negócios a mãe a parte. Na relação custo benefício talvez até estivesse ainda levando vantagem. Vida errática gostos exóticos preços corrosivos. Naquele calor insano da região, misericórdia seria a morte antes da ação.


Gerson F. Filho.


Ver também: Contextos da Usura / Contextos da Usura Parte 2 / Contextos da usura O peso do suor. / Contextos da Usura O ágio da Maldição / Contextos da Usura Parte 5.




sábado, 4 de dezembro de 2010

O espectador.






Reconheço sou estranho;
Não comungo com unanimidades,
Diferenças somam não subtraem.

Bisonho agora é o raciocínio.
Ser pasteurizado o objetivo da hora,
Não discorde somente aceite.

Então se a concordância for ríspida,
Passe azeite alienado de torniquete.
Sinta-se preso e ao tempo leve e desatado.

Pense: seja sozinho na solidão ética.
Ou se torne mais um membro da manada.
Decida agora antes de qualquer coisa.

Fingir fugir não é opção,
Fustigar o frêmito dos favores, falácia!
Grite! Se o sobressalto for vertigem.

Brinque na fuligem do impoluto.
Brinde ao passado galhofeiro,
Seria melhor ser inerte.

Um paquiderme no caminho.
Será que notariam o detalhe?
Manobras manipulam as massas.

Sou o espectador.
O cenário se deteriora veloz.
Está na hora de partir...


Gerson F. Filho.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Paixão.





Paixão, aluvião na alma.
Aquilo que sempre passa,
Aquela coisa que esgarça,
Isto que tira toda calma.

Faz perder o prumo.
Leva todos os conceitos,
Soterra os preceitos,
Tira o coração do rumo.

Queima até as cinzas.
Gera odor que não se sente,
Elimina o brio das vítimas.
Tem o traço inclemente.

Seria melhor amar ainda,
Mesmo que seja sem razão.

Gerson F. Filho.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Idas e vindas.






Eu disse tudo por tão pouco.
Obtive tão pouco por tudo.
Convicção um caminho oco,
Determinação pelo absurdo.

Ilusionismo perante a face.
Aquelas coisas que se esconde,
Bem debaixo do disfarce.
O que assovia atrás do monte.

Entre idas me aconcheguei.
Nas voltas talvez sorriso,
Na tal expectativa tropecei.
Será a espera mais que isso?

Por amor aguardei bem mais,
Mesmo colhendo somente os ais.

Gerson F. Filho.

sábado, 13 de novembro de 2010

Sentido único.






Emocione-me além do arrepio.
De sentido ao meu dia.
Entre a pausa e a alegoria,
Que seja da minha alma o alívio.

Então que esteja por amor.
Aquele teu impulso explicito,
Tão eficaz como específico.
Que irá me insuflar o calor.

Não use o comedimento.
Basta à queda como caminho.
Tenha meus braços como ninho,
Esse amor nosso condimento.

O ontem jamais será um amanhã.
Ainda que de lembranças se viva.

Gerson F. Filho.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Destino.






Não desisti de amar.
Minha alma inquieta voa,
Não desiste com o tranco oblíquo.
Fustigar-me é só tempero,
Atiçar-me é um engano.
Já inflamo e queimo a hora
Nos escaninhos da paixão.
Contesto o inexplicável.
Ouso por a idéia em questão.
Desafiar certezas meu prazer.
Não estou imerso em doutrinas,
Alimento-me com desafios no café da manhã.
Minha meta acossar o dogma,
Viver e morrer procurando sempre
O caminho da razão.

Gerson F. Filho.