segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Liberdade.





Um vulto, um déjà vu, algo assim na esquina do olhar que a pretexto de ser visto instiga o coração. È isso! A sensação da mudança, o efervescer do sangue que pressente o novo cenário se aproximando. Aquele vazio lotado de expectativas, esperanças. O rubor na derme débil que se arrastou no labirinto escuro e úmido de uma relação impossível. Os odores carismáticos se apiedando e causando torpor nos extremos traços dos sentidos. Aquele algo que antecede o êxtase, alguma coisa como um após orgasmo, uma apostasia de si.


E na outra margem o agora delirante se esforça para ser plausível refrescando-se com um leque de possibilidades. Uma volta às origens, um retorno as vertigens densas daqueles momentos de liberdade, a possibilidade de novamente ser inconseqüente, de ser imprudente, mesmo sendo pragmático. Viver! Finalmente! Mesmo que seja tenso, ainda que esteja propenso e batizado com o viés da desilusão. Ainda assim terá seu valor apenas um breve momento de felicidade. O frisson faz a queda valer à pena.



Gerson F. Filho.



domingo, 8 de janeiro de 2012

Fotografia.






Oculto por detrás do sorriso, naquele momento congelado; visto agora, anos após, você já se sentiu um idiota? Não lá, naquele passado perdido no tempo, onde coragem, medo, vitórias, derrotas, amores e desilusões apenas formavam uma massa disforme pairando sobre a teia de possibilidades. Não no pretérito, enquanto tantos passos e atitudes ainda não tivessem extenuado o agora, mas nesta ocasião na qual por acaso você se deparou consigo nesta janela para o ontem.


Teria sido melhor? Teria sido pior? Só aquela sensação de que no mínimo poderia acontecer diferente. Aquele amor poderia ter acontecido, aquela dor antes de doer poderia ter sumido como magia, e todos os acertos poderiam sim ter superado os desacertos. Mas tudo agora, ali, está catalogado, inserido na história, não dá mais para reescrever aquela ocasião. Aquele lápis se consumiu, a verve efervescente daquele momento sucumbiu ao tempo, que também já não está mais aqui, enquanto isso ele fugiu.


Acho que vou me fotografar agora. Talvez amanhã eu ache novamente uma ocasião para rir destas incoerências sistêmicas que se apoderam do meu coração. Convém congelar mais este momento, para ter certeza que um dia, no passado eu tive discernimento para ver por onde passei. Hei! Tempo! Estou indo, Se é para me consumir, então que tenha o trabalho de fazer isso com este certo eu que me habita em movimento.



Gerson F. Filho.

Contextos da Usura 9.









Cuidado! O coisa ruim coloca seus vestígios também nos inocentes.



Sob o peso da atmosfera úmida e escaldante os destinos iam sendo costurados aleatoriamente para que no final o resultado fosse o pior possível. Leogácia ia se esvaindo gota a gota, prorrogando o máximo possível o seu sofrimento e o dos seus filhos. Tudo isso sem perder a lucidez, até o final. Olivário o filho mais novo, o encarregado do acompanhamento já estava à beira do delírio. O processo infame já se arrastava por mais de dois anos. Como sofrimento na verdade não purga, Leogácia maltratava o filho dizendo que ele tinha que reaproveitar as fraldas geriátricas descartáveis para economizar. Neste caso além de não purgar era completamente inócuo, Leogácia permanecia exatamente a mesma pessoa.


Abordando mais um capítulo desta trama surreal, Ludmila, a filha mais nova, aquela que nunca deu preocupação ou aborrecimento não ficou sem traços da personalidade da mãe. Casou e a partir daí procurou direcionar todos os vencimentos do seu marido para a construção da casa própria. Em trinta anos raríssimos recursos foram direcionados para o lazer. Diversão deveria ser aquela que fosse a mais barata possível. Viagens de férias, passeios, excursões, tempo em outras cidades, hotéis nem pensar! Dinheiro foi feito para comprar tijolo, cimento, areia etc etc. Pra quê conhecer outro lugar! A beira do rio local oferece uma excelente pescaria. E você ainda leva de brinde a picada de alguns borrachudos para coçar a noite toda até sangrar.


Foram trinta anos assim. Ludmila e sua vida de formiga, coisa herdada da mãe, como se costuma dizer, cavaco não voa longe do pau. Construção, acabamento, ampliação, reforma, mais areia pedra, cimento, piso, rejunte, cal, tinta, porta, janela, soleira, e tome dinheiro, e se o dinheiro não dava vamos aos empréstimos. E o Marido se arrebentando no trabalho, Dilogrécio fazia o melhor possível, procurava ser um autêntico e eficiente provedor, com raras exceções onde as dívidas inibiam a empreitada, no geral ele ia conseguindo fornecer os recursos. Agora a saúde ia perdendo força. Muito trabalho, dedicação integral para alçar novas funções e com isso melhorar o salário iriam consumir toda energia de Dilogrécio. Sem contar que a vida corporativa se passa em um ambiente selvagem, predadores sempre estão a espreita para causar prejuízo a quem trabalha direito.


Carregar o piano e não ter o direito de ver o pianista tocar consumiu muito de Dilogrécio, ele foi se transformando numa sombra automatizada, um vulto robotizado suprindo as vontades de Ludmila. Seu erro foi aceitar isso, mas seria cobrado por ele, pois no final, com o casamento em frangalhos, Ludmila jogou toda a culpa em cima dele, afinal de contas ela era filha de Leogácia e por isso achava que era possuidora de uma inteligência e uma intuição superior, ela; não erra nunca. Se algo deu errado a culpa será sempre de quem está do lado. Bem articulada, mesmo com baixa escolaridade, ela dominou o cenário e Dilogrécio desperdiçou sua vida. O mal tem braços longos, cuidado ele pode te tocar também, isto é, se já não o fez.



Gerson F. Filho.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Espaços exíguos.





Momentos extenuados se encontram comigo. Meu ponto final torna-se sempre o início. Algo me impele ao próximo passo ainda assim. Porque por princípio nada eu começo nada eu finalizo, apenas insisto viver ao sabor dos extremos extensos limites da razão. Sentir o louco desatino da certeza, tocar o intangível sorriso da dúvida se assim fosse possível, e acaba sendo apesar da incoerência.


Porque as ocasiões chegam em pacotes, os momentos são unicamente protocolos ditados na seqüência determinada. A esperança apenas amortece o atrito circunstancial de uma ansiedade que de forma aleatória tenta trafegar no espaço exíguo do humor. Ria! Sorria! Tua realidade, o teu dia, já passou. Ontem hoje e o amanhã têm endereço certo, estão por detrás daquela luz que viste ao abrir os olhos esta manhã. Levante! Vá em frente, tudo já está definido. Você já foi. Por enquanto é, e ainda será um acontecimento neste contexto.



Gerson F. Filho.

sábado, 29 de outubro de 2011

Algo assim e apesar de.





Esperança, vela insuflada entre azuis.

Que cobrem e sustentam destinos.

Abrigam sonhos loucos e desatinos,

Ante a ânsia e o desassossego sutis.


Um quê de certezas secas e inseguras.

Alguma coisa que diz sem condizer,

Aquelas coisas que ocultam o prazer,

O tempo tão incessante das clausuras.


Porque o fim está sempre no início.

Chegar, um claro e almejado objetivo.

Partir, a opção que não vê lenitivo,

E ainda assim ela dita meu princípio.


A alma essa tal incógnita que pensa.

Mesmo sem ser densa em presença.


Gerson F. Filho.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O guardião das estrelas.




Guarda tuas angustias nas páginas viradas.
Elas estarão sempre lá,
Mas serão contexto passado.

Cultive a humildade,
O silêncio e a observação nos teus campos.
Aquele que sustenta o infinito o verá.

Receba a indiferença
Apenas como um acidente de percurso.
Não deixe que ela te marque.

Mesmo que esteja
Nos teus piores dias ofereça um sorriso,
O amor nasce em pequenos detalhes.

Não sinta o peso da existência,
A vida é energia densa porém maleável.
Vá moldando conforme a caminhada.

No fim tudo é luz ou escuridão.
No universo a cada segundo nasce uma estrela,
Persevere e seja mais uma entre elas.




quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Dissonância cognitiva.




Doçura insolente que dos teus olhos escapa, não venha me dizer que antes da curva mora a surpresa. Atiçar-me com o inesperado seria apenas um detalhe, um afago do destino. Novos caminhos surgem no oceano de possibilidades, e um sorriso desconhecido pode ser a chave de um novo enredo.


Pode ser tarde para você meu bem, algo deve ter mudado no contexto, a textura mudou, a ocasião perdeu consistência, e a incoerência espetou meu ímpeto com seu jeito cafajeste. Posso ser seu e de um leque de possibilidades. Talvez seja essa a resposta, os bonzinhos não têm charme.


Então querida fique com a sedosa dúvida que acaricia tua libido. Revanche? Ora meu amor; bandidos não temem o amanhã, se a casa cair partem para outra. Sempre haverá um coração incauto para ser ferido, sempre haverá uma mentira para iludir quem assim o quer.



Gerson F. Filho.