domingo, 4 de janeiro de 2026

Desacatos.

 

                                                           Image by Neo Tam from Pixabay.






Desacatos.





Nesse mundo, entre malandros, espertos e sonsos sempre há desperdício de potencial. E portanto, como sou apenas uma alma sem protagonismo que cumpre o caminho entre essas ocasiões que se distinguem pelo vazio absoluto que representam, vou eu nesse plano, procurando atitude para encontrar minha metade, a verdadeira! E não um simulacro oportunista, que apenas se interesse por si e seus valores. Porque estar desnudado em corpo e alma perante a apenas questões pessoais de outrem não produz sustentação. Resolvi, enfim, criar um conjunto estruturado de situações em referência a nossa realidade grotesca desse mundo em decadência, onde os limites éticos foram sumariamente rompidos, apenas para controle e registro de um mundo decadente e corrompido quase que completamente. Então, sendo assim, vamos flutuar literariamente nessa oportunidade inusitada para absorver a realidade dos desencontros que por vezes parecem sórdidos, outras vezes de tão controversos, são merecedores de que escorram pela sarjeta até o esgoto. Viver aqui, ocasionalmente nuca foi fácil, coisas que hoje parecem rotina, já existiam em passado remoto, não por escolha, talvez, mas por inclinação genética, algo desandou entre os habitantes, e assim, poderíamos dizer que, a luta pela vida de forma feroz, produziu truques que se consolidaram no perfil da população. Este extrato social degenerado produziu uma geração de componentes sociais afeitos ao truque desonesto, a trapaça e a venalidade, hoje já tornada explicita e sem manobras com algum eufemismo para ser mais discreta e imperceptível pelo público geral, a explicitude e o exibicionismo hoje, se tornou a regra. Pudor? Ora, isto é para gente que conhece limites éticos, e não para depravados. E assim, tudo isso, esse comportamento exótico vem de longe, das profundezas abissais das Capitanias hereditárias, e foi migrando e se misturando com a cultura local, indígena, com o ritmo sofrido dos escravos e no fim aqui estamos, essa mistura genética que nos faz em maioria pardos, pardos na cor e na composição de nossa lucidez que se tornou opaca e versátil nas alegorias que cria para escapar das dificuldades. Entre malemolências e malandragens eu cheguei aqui quando os bondes gemiam com suas ferragens através dos trilhos da cidade. O cenário tinha um ar romântico de uma organização dissimulada, onde seria possível até imaginar seriedade, mas já não era assim, e o carnaval estava ai para isso. Para mostrar a verdade oculta. Onde o verdadeiro espirito do povo se abria para um escrutínio de mais profundidade. A tal elegância de época era perdida quando executivos e gerentes respeitáveis eram encontrados nas ruas fantasiados de bebê com pasta de abacate esfregada no traseiro para simular que estava cagado, e ainda de chupeta. Onde foi toda aquela empáfia, todo o decoro exigido para a função que existam? Ah, é apenas brincadeira, alguém já disse por ai, se não me engano foi Freud, que brincado se diz até a verdade.



No carnaval se torna possível mostrar aquilo que se realmente é, se transformar na realidade, abandonar a máscara social para extravasar desejos reprimidos e opções controversas quanto ao trato social. No fim, foi tudo brincadeira, uma piada mal acabada, uma loucura de momento. Não se enganem, nesses momentos e nas bebedeiras se conhece com mais profundidade a alma humana. E assim, desde muito novo tive de criar desacatos com a realidade para de alguma forma manipulá-la e obter alguma vantagem momentânea que me servisse e me fosse útil. Afinal, por característica própria e por auxílio de já um bom padrão cultural que carregava comigo, aprendi desde cedo a analisar e interpretar personalidades. E exatamente por isso eu sempre recomendo, leiam, leiam de tudo de romances a livros técnicos, de filosofia a qualquer coisa que possa acessar, o melhor exercício para o cérebro é a leitura. Nunca será perda de tempo ler, seu cérebro cria mundos, cenários, paisagens de acordo com a narrativa que o livro oferece, oferece também uma viagem no tempo, enquanto você estiver dentro de um livro, você se posiciona dentro daquele cenário, naquele ambiente e época. Sentindo as angustias, percebendo a dor e a alegria dos personagens e gerando em si, a cada virada de página, uma expectativa, de acordo com o conteúdo. E o mais importante, acumulando as lições aprendidas por essa viagem inusitada. Para um leitor assíduo, o mundo fica mais simples, as surpresas já não surpreendem tanto mais, e as soluções aparecem no fluxo de raciocínio espontâneo das circunstâncias. Cada livro, um universo diferente, se transforme num saltador de universos. Estar dentro de um Dostoiévski e depois dentro de um Tolstoi, em outro momento mergulhe no Ortega y Gasset e em mais um caminhe com Sancho Pança e Dom Quixote ao mergulhar em Cervantes. Ou quem sabe, queira mergulhar mais fundo com Virgílio Maro na Eneida. Entenda! Sempre em um lugar de despreparados, quem tiver o melhor nível intelectual vai se destacar, e uma boa educação que possa proporcionar uma conversa de alto nível abre portas e oportunidades aparecem. As entrevistas de emprego servem também para isso, avaliar o nível intelectual do candidato, e sua fluência cultural, porque isso interfere no relacionamento em grupos e equipes. Não adianta nada apresentar um canudo universitário e se mostrar um completo vazio cultural. Ser bem articulado depende de quanto você leu e conheceu.



O método é simples e depende de estabelecimento da disciplina e rotina. Habitue-se a ler, exercite seu cérebro para que estabeleça espaçamento para mais conteúdo, técnico, que é o necessário para trabalhar, e o cultural para se tornar destaque e assim ficar em evidência. No fim, você criará uma necessidade, a leitura será algo indispensável como beber água. O que a princípio era sofrimento, se tornará lúdico e no final, essencial. Podemos aqui até citar uma máxima de Albert Camus:


A meio caminho entre a monotonia e a loquacidade, eles tinham que encontrar uma linguagem para sua obstinação”.


Então, assim precisamos nos persuadir, superar a monotonia, a preguiça, o desinteresse que atrapalha a jornada, superar o primeiro momento onde o mundo nos chantageia com apegos fúteis e vazios, e enfim, obter a obstinação necessária para construir uma história. A vida é um claro desafio, portanto, internalize, introjete-se com propósito, porque, imiscuir-se na sabedoria te elevará a patamares que lhe favorecerão na trajetória dos acontecimentos, e fará de ti o destaque que tanto almejou.



Gerson Ferreira Filho.


ADM 20 – 91992 CRA – RJ.


Citação:


A inteligência e o cadafalso. Albert Camus. Editora Record.  




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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Da densidade e dos objetivos.

 


                                                       Image by Gerd Altmann from Pixabay.



Da densidade e dos objetivos.




Então, integrar-se a um contexto óbvio parece natural a não ser que exista mais textura nesse rótulo que nos ofereceram para a identificação dos momentos diversos que ocupam nossos espaços e o nosso tempo. As ocasiões se entrelaçam, e mesmo tão distantes, constituem e constroem as paredes que nos sustentam decisivamente. A vida prossegue, mas sempre os nossos fragmentos estarão assim interagindo conosco, para o bem e para o mal. Uns causarão ternura, outros desassossego, alguns desconforto e outros a saudade do que não tem mais retorno. Assim se constitui a trajetória, essa trilha conturbada que se chama vida, onde semeamos, escolhemos, lutamos e algumas vezes desistimos, tudo para sentir o desejo de que enfim, valha a pena estar aqui. Os possessivos se contrairão em espasmos de fluxo, os desapegados deixarão ir oportunidades escondidas nas reentrâncias do destino, e o determinado fará de tudo isso a tempestade de onde o vento criativo lhe fornecerá caminho. Não por desapegos e muito menos por exageros, a vida requer disciplina, equilíbrio e muita força de vontade, seus atributos não possuem arestas salvadoras, ou você se entrega ou será descartado na primeira sacudida quando o vento acossar a realidade. O sopro primordial, que lhe deu vida, possui circunstâncias efêmeras e inusitadas, cuide-se e mantenha o foco para esse momento, talvez ele não se repita mais. E se por acaso existir uma nova oportunidade, você não se lembrará de nada que viveu aqui, agora, nesse intervalo único. Minha literatura é desnatada, quase um produto para dietas com baixas calorias, mas eu recorro sempre ao que existe de melhor no ramo dos que escrevem, então, aqui não se preocupe com uma obesidade mental, isto fica por conta desses socialistas, que esclerosam sua percepção para possuir seu espírito. E uma alma carregada de negatividade se torna pesada, com cita Rubem Alves:


Quando a alma é pesada, ela precisa de muita coisa para não se desequilibrar. Mas se ela é leve, não precisa de quase nada”.


Tudo depende do relacionamento entre espaços, definidas por suposições, todas elas geram o arcabouço ético de premissas que tentarão conduzir com garbo à luz dos nossos passos. O peso que se sente passa a ser circunstancial, um desconforto atribuído a peso material mas que na verdade não possui substância para ser assim. Porém, sentimento pesa, fornece lastro psicológico dentro de seus atributos e se torna inconveniente como peso a se carregar. Rubem Alves cita:


Que a alma tem peso é fato comprovado pela experiência de cada um e pelo cotidiano da pesquisa clínica. Dizemos: Estou me sentindo leve! Estou me sentindo pesado!… Tais declarações de fato, que não têm relação alguma com o peso dos corpos, pois que magros se dizem pesados e gordos se dizem leves, só podem, portanto, se referir à alma”.


O resultado de nossas ações geram carga, ao menos para os que possuem consciência para usufruir de julgamento, isto está presente até em romances como Crime e Castigo de Dostoievski. Aquele fato consumado que sempre retorna para exigir seu resgate que apazígue a alma de vez. Não somos irracionais, que funcionam apenas com instintos básicos que governam necessidades fundamentais para permanecerem vivos, não produzindo assim nenhuma análise de contexto além de comer, dormir, fazer sexo para se reproduzir e expelir suas necessidades e morrer. Com a regressão cultural dos nossos tempos já temos muita gente vivendo assim, nessa irracionalidade padrão. Já perceberam que em ambientes de baixa cultura, as brigas por espaço e preferências rotineiramente acontecem? Temos nesse meio apenas força física, não há mais ponderação e negociação, o que parece meu, se torna meu se sou mais forte, na natureza, no mundo animal irracional é exatamente desse jeito.



Um mais forte domina e comanda o rebanho ou a alcateia, ou seja, lá que grupo for. Temos qualidades superiores, não somos naturalmente assim, possuímos um cérebro com muito mais recursos, mas ele tem de ser alimentado com boa cultura, com conhecimento para que possa se desenvolver e produzir um homem melhor. Sem uma boa aquisição de conhecimento vai restar apenas o lado selvagem de ser, que ainda trazemos dentro de nós. Rubem Alves aborda o tema:


É isso que nos diferencia dos animais. Os animais vivem em meio às presenças. Mas nós somos moradores das ausências. Desejo: reconhecer que algo está faltando. Saudade. Eu sugeriria que espiritualidade tem algo a ver com isso: viver em meio à presença de uma ausência. É daí que surge tudo que de belo fazemos: o amor, a poesia, os jardins, a música, as revoluções...Tudo. Fazemos essas coisas para completar esse pedaço que está faltando”.


Um ser humano, com sua capacidade mental completa espaços, busca qualidade, entra no vazio e o preenche com as situações que vão lhe realizar quanto a satisfação dos seus desejos. Todas as presenças naturais não nos bastam, temos a necessidade humana de povoar ensejos com algo que nos cative e nos envolva e assim justifique nossa condição de reformadores da realidade, nenhum animal irracional possui essa capacidade, portanto não devemos criar uma proximidade com eles nesse critério, temos raciocínio.



Em tudo isso somos crianças perdidas nesse universo de possibilidades e de trapaças onde nossas esperanças flutuam ao vento primordial que acaricia e acoça dependendo do seu humor multifacetado onde os objetivos colidem com propósitos apena para causar contrariedade na textura do tempo. E em tudo isso tem também a religião, uma necessidade de estabilização psicológica mas também um eficiente método de controle, ela deveria ser como Rubem Alves define, um pássaro voando, livre e sem conflitos, pois até onde entendemos, existe apenas um Criador. Porém, uma característica bem humana é o orgulho e o desejo de estar certo. Rubem Alves diz:


Mas aí vêm os humanos com suas arapucas e gaiolas chamadas religiões. E cada uma delas diz haver conseguido prender o Pássaro Encantado em gaiolas de palavras, de pedra, de ritos e magia. E cada uma delas afirma que seu pássaro engaiolado é o único Pássaro Encantado verdadeiro…”.


Portanto, somos complicados, complexos e próximos ao conflito e ao separatismo. Acredito que tudo faça parte do teste, da avaliação de um produto, de algo que mereça tanto sacrifício. Ou algo ou alguém aprecia desperdício de energia o suficiente para perder tempo com alguma coisa que parece não ter a mínima chance de dar certo.





Gerson Ferreira Filho.


ADM 20 – 91992 CRA – RJ.



Citação:


A eternidade numa hora. Rubem Alves. Editora Paidós.



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