Image by johannylisbeth from Pixabay.
Incertezas.
Você sabe por que está aqui? Então, se você não sabe nada de si por que saberia algo concreto a respeito do que o cerca e do restante que consegue observar? O que você aprende seria a verdade ou apenas um jogo e ilusão para conter expectativas e impulsos incontroláveis que desestabilizariam uma mente com recursos limitados dentro de um infinito de opções. Onde começa, onde termina, as fronteiras são definidas por quem? A narrativa tem de se sustentar ou a esperança sucumbe no borbulhamento das incertezas, essa que cumpre o seu papel fundamental de interagir com a emoção, e assim apaziguá-la dentro das fronteiras iluminadas de uma existência. Como uma tênue sutileza cósmica convivemos com o infinito numa parceria estável na qual verdadeiramente nada sabemos, apenas especulamos com as estrelas para romantizar aquilo que somos. O pó querendo ter significância, o atrito que aquece a alma para que se sinta relevante dentro de tudo isso. A certeza? Que chegamos aqui abruptamente e sairemos daqui aparentemente sem data marcada, inevitavelmente, essa coisas estão estabelecidas no cenário, todo o resto não passa apaziguamento de conflitos impenitentes que surgem para impedir a ociosidade da alma que não tem permissão para descansar. E assim, contamos com as possibilidades, aquilo que se torna viável dentro das circunstâncias, aquilo que proporcione razão ao momento, Um amor? Um relacionamento? Ou uma missão? Teríamos assim que avaliar o momento, para um jovem, um amor seria uma boa proposta para mais velhos e calejados de tanto caminho uma missão teria maior aceitabilidade, dentro de cada trajetória moram as necessidades e isto faz toda a diferença. O trajeto cumprido delimita as escolhas, ao inicio da manhã de uma vida uma necessidade, ao entardecer aquilo que puder se acatar. Ortega y Gasset tem uma abordagem interessante a respeito desse tema:
“O homem tem a experiência de que a vida não consiste somente no que há, mas também no que cria, que tira de si mesmo novas realidades, que a vida, portanto, não se define exclusivamente por suas necessidades, senão que, ainda mais do que estas, e transbordando-as, consiste em abundantes possibilidades”.
Será então, necessário criar dentro daquilo que não entendemos a possibilidade de uma realidade plausível que nos atenda e nos conforte, pois tudo aquilo que acreditamos que há, pode ser apenas um reflexo de um momento de imaginação , sem sustentação suficiente para se consolidar enquanto margem cognitiva para que se torne axioma. A arquitetura do imaginário tem de gerar sustentação para que, e para nós, exista esse intervalo existencial sem conflito e turbulência da realidade produzida na expectativa do desejo. O mundo é aquilo que construímos, pessoalmente ou em grupo, se o resultado se torna desconfortável, algo foi malfeito, mal planejado, e se entregou a sistematização de algum erro que veio a criar opções exageradas e conflitantes quanto a uma vida normal. Ortega y Gasset tem mais alguma coisa disser:
“Há que se escolher. A emoção básica a partir da qual se dá o fenômeno da existência é o contrário da resignação, pois viver é “ter algo de sobra”. Começa a emoção básica da petulância, da prepotência existencial do humanismo”.
Se encontrar em certezas definidas onde floresce a convicção petrificada de sistemas que se apoiam no acúmulo de vontades satisfeitas por um padrão, não proporcionam o “algo a mais” ou “algo de sobra” para que se possa transcender além das franjas das margens psicológicas que nos abrigam. Nada pode ser considerado exato se nem ao menos você tem a certeza de como e o porquê está aqui. Se não sabemos, devemos assumir que não sabemos e partir em busca da apelidada de pedra filosofal pelos alquimistas e primeiros filósofos. O que ela era? Um conceito, aquilo que transforma a escuridão em luz, ignorância em sabedoria ou para os não iniciados, chumbo em ouro. Apenas um artifício para aqueles que não possuem capacidade de entender.
A penumbra tenaz que abriga essa eterna dúvida quanto a origem será nossa companheira de jornada, Não se trata de incapacidade ou de limites, lembre-se sempre, limites não existem, em todos os sentidos que você siga, não encontrará fim. Não é esse seu propósito, embora seja instigante explorar o impossível. O ocaso do nosso objetivo está além do limiar que nos impuseram para sermos o que somos. Incertezas, enfim, a pura indefinição como leito que receberá nossos passos nesse percurso, Sentimos, percebemos, nos entregamos a toda e qualquer emoção aleatória que encontramos, assim vivemos, nas margens dos prognósticos, sentenciando a cada mudança de paisagem que tudo não passa de destino. As ocasionalidades que ocorreram durante o trajeto forma simulações? Aquele amor encantador, aquele ódio devastador ou a indiferença aplicada na ocasião, ou então a ingratidão que acossa o espirito através do tempo. Vivemos, compartilhamos, seduzimos e somos seduzidos, indo além da fronteira da razão, e ainda assim, cremos e assumimos ter controle de algo que nem sequer percebemos como funciona. Devemos assim traçar o nosso horizonte, a nossa referência final, onde se oculta tudo aquilo que realmente desejamos, porque a esperança se alimenta da surpresa, do inusitado que conforta ou o que venha devastar nossas crenças. E assim, mais um pouco da filosofia de Ortega y Gasset:
“O homem encontra-se em meio a várias opiniões, sem que nenhuma delas sirva de apoio firme para seus pés – por isso escorrega entre muitos “saberes” possíveis e cai, cai em seu elemento insólito, fluído… cai num mar de dúvidas. A dúvida é flutuação do juízo, ou seja, um remar desesperado em meio às ondas”.
Então, flutuamos, prosseguimos a deriva, sem um rumo específico, acreditando em fantasias que nos contaram para entretenimento enquanto estávamos vazios, sem conteúdo que abrigasse nossos sonhos. Temos a ciência diriam alguns, porém Aristóteles definiu a ciência: “A ciência é a presunção mais convincente”. Em suposições jazem tudo o que sabemos, e na lisonja que nossa característica proporciona, rumamos sem objeto específico que nos sustente dentro do lugar-comum o qual nos transformamos. Sentimos que a vida vale a pena ser vivida, Assim, a religião fornece a transcendência necessária para estabilização em meio ao turbilhão de simulacros que se apresentam se forma abusada para oferecer o pretexto no qual muitos se perdem.
Gerson Ferreira Filho.
ADM 20 – 91992 CRA – RJ.
Citação: Origem e epílogo da filosofia. José Ortega y Gasset. Vide Editorial.
A maioria dessas crônicas estão em áudio no meu canal do Telegram. Que se chama também Entretanto e pode ser acessado no link abaixo. Uma abordagem mais personalizada do texto na voz do autor.
A seguir os livros e os links para comprá-los na Editora Delicatta.
https://editoradelicatta.my.canva.site
Lançamento já disponível para compra na Editora Delicatta. Trezentas páginas das crônicas mais recentes com os mais variados temas como sempre.





Nenhum comentário:
Postar um comentário