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As dores do mundo.
Existir, enfim, um tratado de perseverança sem retribuição, sem promessas equivocadas e com atributos muitas vezes de aspecto perverso e contraditório. O que eu faço exatamente aqui? Muitos devem se perguntar, esse ócio onde a expectativa de ser feliz fornece algumas migalhas de força para que possamos cumprir a trajetória conturbada das ocasiões que se apresentam, e muitas vezes sem nenhuma parcimônia ou leveza para que seja considerada algo bom. Não há como saber afirmativamente, por mais treinado nas probabilidades das ciências exatas, ao começar um novo rumo, uma nova aventura, tudo pode subitamente se transformar em desilusão ou em raríssimas oportunidades em algo positivo. O viés negativo é preponderante, parece ajustado para isso mesmo, oferecer desafios contínuos, onde os atritos e aleatoriedade proporcionarão a tradicional inquietação litúrgica do processo. Com lábios de infinito, as propostas sempre se apresentam com sua sedução característica para oferecer o impossível como se fosse uma possibilidade bastante plausível. E não adianta preparar exéquias ao nosso destino, a proposta oferecida e aceita não se flexionará ao desespero e a angustia da razão. Então, se é assim, tome um banho de atitude e vista a determinação que a ocasião pede, se é assim, ofereça seu lado mais perigoso quanto ao cenário, ser um carneiro nessa selva de contradições nãos será vantajoso, seja o lobo. E lembre-se, seja imprevisível, tudo aquilo que pode ser mapeado antecipadamente já perdeu antes da luta começar. Saciar-se com impulsos que se aprestam como opção preliminar pode não ser uma boa política. Utilize da periferia do instinto até ao núcleo da premonição. O filósofo Schopenhauer tinha uma interpretação dura da realidade:
“Devemos considerar a vida como uma mentira contínua, tanto nas coisas pequenas como nas grandes. Prometeu? Não cumpre a promessa, a não ser para mostrar quanto o desejo era pouco desejável: tão depressa é a esperança que nos ilude, como a coisa com que contávamos. - Se nos deu, foi só para tornar a nos tirar. A magia da distância apresenta-nos paraísos que desaparecem como visões logo que nos deixamos seduzir. A felicidade, portanto, está sempre no futuro, ou no passado, e o presente é como uma pequena nuvem sombria que o vento impele sobre a planície cheia de sol; diante dela, atrás dela, tudo é luminoso, só ela projeta sempre uma sombra. O homem só vive no presente, que foge irreversivelmente para o passado, e afunda-se na morte”.
Na verdade, na vida, as expectativas quase nunca se cumprem, se consolidam como resultado, vivemos de resultados obtidos eventualmente no passado ou nas asas de um a possibilidade futura que nos impele sempre em frente, mas sem garantia nenhuma de se realizar. Nunca há garantias, um compromisso que se possa chamar de verdadeiro, o que resta é a dedicação com a qualidade que colocamos no trajeto, com a determinação pessoal que carregamos, onde o turbilhonamento semântico da filosofia não estabeleça conflitos no arquétipo da alma e sendo assim até poderemos obter resultados inesperados, viver sem contar com o amanhã, até porque ele realmente não existe, se trata de uma construção, em hipótese, que terá o formato com e das atitudes e com a arquitetura do passado que assim estabeleceu a regra básica. O que foi, estabelece vínculos de harmonia. O presente estabelece a ação, o lugar onde existimos onde todas as dores do mundo são percebidas e abrigam nosso sonhos e vontades.
As contradições do percurso devem ser assimiladas, introjetadas e consumidas como experiência, internalizando na alma todo percurso plausível a ser percorrido, como se fosse uma refeição que irá lhe possuir e recarregar o espírito de energia para cumprir o objetivo determinado. A penumbra da noite não indica inutilidade, ela descansa no leito das estrelas para proporcionar um caminho com energia renovada no amanhã dos passos que serão dados. Claro, nada se torna simples e a proposta de viver, de existir não se apresenta nunca como uma coisa suave, ela é ríspida, desafiadora, como um dia de mar revolto, onde os esbarrões com as águas proporcionam desconforto e náuseas. Schopenhauer trabalha mais um pouco nessa área:
“A vida não se apresenta de modo algum como um mimo que nos é dado gozar, mas antes como um dever, uma tarefa que tem de se cumprirá força do trabalho; daí resulta, tanto nas grandes como nas pequenas coisas, uma miséria geral, um trabalho sem descanso, uma concorrência sem tréguas, um combate sem fim, uma atividade imposta com uma tensão extrema de todas as forças do corpo e do espírito”.
Toda proposta será um caminho e toda organização psíquica conterá o sofrimento da decisão de existir para o desafio, está pronto para essa jornada? Tem certeza? Apenas o consentimento, a aceitação do trajeto já te faz especial, a boa vontade o desprendimento perante a dor de ser e estar aqui representa o merecimento de ser escolhido. A aleatoriedade cósmica é o disfarce de Deus para confundir os arrogantes, essa gente pensa ter controle, mas na verdade são crianças brincando com um formigueiro.
Em algum momento receberão auxilio, quando estiverem prontos. Está no Caibalion:
“Quando os ouvidos do aluno estiverem prontos para ouvir, então virão os lábios para preenchê-los de sabedoria”.
O princípio da correspondência é inevitável e definidor da construção da personalidade e do que se chama de destino. Nada, absolutamente nada se torna possível e plausível sem ele. Apenas ele afasta os obstáculos do presente do passado e do futuro. Cada centímetro da ilusão a qual você pertence está metrificada por esse critério, essa lei. Os paradoxos não possuem força aqui:
“Como acima, assim abaixo, como abaixo, assim acima”.
O paradigma do espelho rege teus planos e tudo será reflexo das suas ações. O princípio básico que dá o resultado conforme suas ações. Quem planta trigo colhe trigo, quem planta milho colhe milho, cada um colhe o que semeia, inevitável! Lembre-se, viver é apaixonante e complicado, porque a paixão embriaga, e portanto prepare-se para estar desnorteado em alguns momentos, tudo isso pertence ao processo, sentir não ter sentido define o que somos, um oceano de incertezas desafiadoras a que pertencemos a algo que não compreendemos e onde aguardamos na periferia dos sentidos para possuir relevância dentro do infinito no qual por acaso ou por indução sistematizada nos encontramos.
Gerson Ferreira Filho.
ADM 20 – 91992 CRA – RJ.
Citações:
As dores do mundo, Arthur Schopenhauer. Editora Edipro.
O Caibalion. Hermes Trismegisto. Editora Camelot.
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