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Desacatos.
Nesse mundo, entre malandros, espertos e sonsos sempre há desperdício de potencial. E portanto, como sou apenas uma alma sem protagonismo que cumpre o caminho entre essas ocasiões que se distinguem pelo vazio absoluto que representam, vou eu nesse plano, procurando atitude para encontrar minha metade, a verdadeira! E não um simulacro oportunista, que apenas se interesse por si e seus valores. Porque estar desnudado em corpo e alma perante a apenas questões pessoais de outrem não produz sustentação. Resolvi, enfim, criar um conjunto estruturado de situações em referência a nossa realidade grotesca desse mundo em decadência, onde os limites éticos foram sumariamente rompidos, apenas para controle e registro de um mundo decadente e corrompido quase que completamente. Então, sendo assim, vamos flutuar literariamente nessa oportunidade inusitada para absorver a realidade dos desencontros que por vezes parecem sórdidos, outras vezes de tão controversos, são merecedores de que escorram pela sarjeta até o esgoto. Viver aqui, ocasionalmente nuca foi fácil, coisas que hoje parecem rotina, já existiam em passado remoto, não por escolha, talvez, mas por inclinação genética, algo desandou entre os habitantes, e assim, poderíamos dizer que, a luta pela vida de forma feroz, produziu truques que se consolidaram no perfil da população. Este extrato social degenerado produziu uma geração de componentes sociais afeitos ao truque desonesto, a trapaça e a venalidade, hoje já tornada explicita e sem manobras com algum eufemismo para ser mais discreta e imperceptível pelo público geral, a explicitude e o exibicionismo hoje, se tornou a regra. Pudor? Ora, isto é para gente que conhece limites éticos, e não para depravados. E assim, tudo isso, esse comportamento exótico vem de longe, das profundezas abissais das Capitanias hereditárias, e foi migrando e se misturando com a cultura local, indígena, com o ritmo sofrido dos escravos e no fim aqui estamos, essa mistura genética que nos faz em maioria pardos, pardos na cor e na composição de nossa lucidez que se tornou opaca e versátil nas alegorias que cria para escapar das dificuldades. Entre malemolências e malandragens eu cheguei aqui quando os bondes gemiam com suas ferragens através dos trilhos da cidade. O cenário tinha um ar romântico de uma organização dissimulada, onde seria possível até imaginar seriedade, mas já não era assim, e o carnaval estava ai para isso. Para mostrar a verdade oculta. Onde o verdadeiro espirito do povo se abria para um escrutínio de mais profundidade. A tal elegância de época era perdida quando executivos e gerentes respeitáveis eram encontrados nas ruas fantasiados de bebê com pasta de abacate esfregada no traseiro para simular que estava cagado, e ainda de chupeta. Onde foi toda aquela empáfia, todo o decoro exigido para a função que existam? Ah, é apenas brincadeira, alguém já disse por ai, se não me engano foi Freud, que brincado se diz até a verdade.
No carnaval se torna possível mostrar aquilo que se realmente é, se transformar na realidade, abandonar a máscara social para extravasar desejos reprimidos e opções controversas quanto ao trato social. No fim, foi tudo brincadeira, uma piada mal acabada, uma loucura de momento. Não se enganem, nesses momentos e nas bebedeiras se conhece com mais profundidade a alma humana. E assim, desde muito novo tive de criar desacatos com a realidade para de alguma forma manipulá-la e obter alguma vantagem momentânea que me servisse e me fosse útil. Afinal, por característica própria e por auxílio de já um bom padrão cultural que carregava comigo, aprendi desde cedo a analisar e interpretar personalidades. E exatamente por isso eu sempre recomendo, leiam, leiam de tudo de romances a livros técnicos, de filosofia a qualquer coisa que possa acessar, o melhor exercício para o cérebro é a leitura. Nunca será perda de tempo ler, seu cérebro cria mundos, cenários, paisagens de acordo com a narrativa que o livro oferece, oferece também uma viagem no tempo, enquanto você estiver dentro de um livro, você se posiciona dentro daquele cenário, naquele ambiente e época. Sentindo as angustias, percebendo a dor e a alegria dos personagens e gerando em si, a cada virada de página, uma expectativa, de acordo com o conteúdo. E o mais importante, acumulando as lições aprendidas por essa viagem inusitada. Para um leitor assíduo, o mundo fica mais simples, as surpresas já não surpreendem tanto mais, e as soluções aparecem no fluxo de raciocínio espontâneo das circunstâncias. Cada livro, um universo diferente, se transforme num saltador de universos. Estar dentro de um Dostoiévski e depois dentro de um Tolstoi, em outro momento mergulhe no Ortega y Gasset e em mais um caminhe com Sancho Pança e Dom Quixote ao mergulhar em Cervantes. Ou quem sabe, queira mergulhar mais fundo com Virgílio Maro na Eneida. Entenda! Sempre em um lugar de despreparados, quem tiver o melhor nível intelectual vai se destacar, e uma boa educação que possa proporcionar uma conversa de alto nível abre portas e oportunidades aparecem. As entrevistas de emprego servem também para isso, avaliar o nível intelectual do candidato, e sua fluência cultural, porque isso interfere no relacionamento em grupos e equipes. Não adianta nada apresentar um canudo universitário e se mostrar um completo vazio cultural. Ser bem articulado depende de quanto você leu e conheceu.
O método é simples e depende de estabelecimento da disciplina e rotina. Habitue-se a ler, exercite seu cérebro para que estabeleça espaçamento para mais conteúdo, técnico, que é o necessário para trabalhar, e o cultural para se tornar destaque e assim ficar em evidência. No fim, você criará uma necessidade, a leitura será algo indispensável como beber água. O que a princípio era sofrimento, se tornará lúdico e no final, essencial. Podemos aqui até citar uma máxima de Albert Camus:
“A meio caminho entre a monotonia e a loquacidade, eles tinham que encontrar uma linguagem para sua obstinação”.
Então, assim precisamos nos persuadir, superar a monotonia, a preguiça, o desinteresse que atrapalha a jornada, superar o primeiro momento onde o mundo nos chantageia com apegos fúteis e vazios, e enfim, obter a obstinação necessária para construir uma história. A vida é um claro desafio, portanto, internalize, introjete-se com propósito, porque, imiscuir-se na sabedoria te elevará a patamares que lhe favorecerão na trajetória dos acontecimentos, e fará de ti o destaque que tanto almejou.
Gerson Ferreira Filho.
ADM 20 – 91992 CRA – RJ.
Citação:
A inteligência e o cadafalso. Albert Camus. Editora Record.
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