sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Da densidade e dos objetivos.

 


                                                       Image by Gerd Altmann from Pixabay.



Da densidade e dos objetivos.




Então, integrar-se a um contexto óbvio parece natural a não ser que exista mais textura nesse rótulo que nos ofereceram para a identificação dos momentos diversos que ocupam nossos espaços e o nosso tempo. As ocasiões se entrelaçam, e mesmo tão distantes, constituem e constroem as paredes que nos sustentam decisivamente. A vida prossegue, mas sempre os nossos fragmentos estarão assim interagindo conosco, para o bem e para o mal. Uns causarão ternura, outros desassossego, alguns desconforto e outros a saudade do que não tem mais retorno. Assim se constitui a trajetória, essa trilha conturbada que se chama vida, onde semeamos, escolhemos, lutamos e algumas vezes desistimos, tudo para sentir o desejo de que enfim, valha a pena estar aqui. Os possessivos se contrairão em espasmos de fluxo, os desapegados deixarão ir oportunidades escondidas nas reentrâncias do destino, e o determinado fará de tudo isso a tempestade de onde o vento criativo lhe fornecerá caminho. Não por desapegos e muito menos por exageros, a vida requer disciplina, equilíbrio e muita força de vontade, seus atributos não possuem arestas salvadoras, ou você se entrega ou será descartado na primeira sacudida quando o vento acossar a realidade. O sopro primordial, que lhe deu vida, possui circunstâncias efêmeras e inusitadas, cuide-se e mantenha o foco para esse momento, talvez ele não se repita mais. E se por acaso existir uma nova oportunidade, você não se lembrará de nada que viveu aqui, agora, nesse intervalo único. Minha literatura é desnatada, quase um produto para dietas com baixas calorias, mas eu recorro sempre ao que existe de melhor no ramo dos que escrevem, então, aqui não se preocupe com uma obesidade mental, isto fica por conta desses socialistas, que esclerosam sua percepção para possuir seu espírito. E uma alma carregada de negatividade se torna pesada, com cita Rubem Alves:


Quando a alma é pesada, ela precisa de muita coisa para não se desequilibrar. Mas se ela é leve, não precisa de quase nada”.


Tudo depende do relacionamento entre espaços, definidas por suposições, todas elas geram o arcabouço ético de premissas que tentarão conduzir com garbo à luz dos nossos passos. O peso que se sente passa a ser circunstancial, um desconforto atribuído a peso material mas que na verdade não possui substância para ser assim. Porém, sentimento pesa, fornece lastro psicológico dentro de seus atributos e se torna inconveniente como peso a se carregar. Rubem Alves cita:


Que a alma tem peso é fato comprovado pela experiência de cada um e pelo cotidiano da pesquisa clínica. Dizemos: Estou me sentindo leve! Estou me sentindo pesado!… Tais declarações de fato, que não têm relação alguma com o peso dos corpos, pois que magros se dizem pesados e gordos se dizem leves, só podem, portanto, se referir à alma”.


O resultado de nossas ações geram carga, ao menos para os que possuem consciência para usufruir de julgamento, isto está presente até em romances como Crime e Castigo de Dostoievski. Aquele fato consumado que sempre retorna para exigir seu resgate que apazígue a alma de vez. Não somos irracionais, que funcionam apenas com instintos básicos que governam necessidades fundamentais para permanecerem vivos, não produzindo assim nenhuma análise de contexto além de comer, dormir, fazer sexo para se reproduzir e expelir suas necessidades e morrer. Com a regressão cultural dos nossos tempos já temos muita gente vivendo assim, nessa irracionalidade padrão. Já perceberam que em ambientes de baixa cultura, as brigas por espaço e preferências rotineiramente acontecem? Temos nesse meio apenas força física, não há mais ponderação e negociação, o que parece meu, se torna meu se sou mais forte, na natureza, no mundo animal irracional é exatamente desse jeito.



Um mais forte domina e comanda o rebanho ou a alcateia, ou seja, lá que grupo for. Temos qualidades superiores, não somos naturalmente assim, possuímos um cérebro com muito mais recursos, mas ele tem de ser alimentado com boa cultura, com conhecimento para que possa se desenvolver e produzir um homem melhor. Sem uma boa aquisição de conhecimento vai restar apenas o lado selvagem de ser, que ainda trazemos dentro de nós. Rubem Alves aborda o tema:


É isso que nos diferencia dos animais. Os animais vivem em meio às presenças. Mas nós somos moradores das ausências. Desejo: reconhecer que algo está faltando. Saudade. Eu sugeriria que espiritualidade tem algo a ver com isso: viver em meio à presença de uma ausência. É daí que surge tudo que de belo fazemos: o amor, a poesia, os jardins, a música, as revoluções...Tudo. Fazemos essas coisas para completar esse pedaço que está faltando”.


Um ser humano, com sua capacidade mental completa espaços, busca qualidade, entra no vazio e o preenche com as situações que vão lhe realizar quanto a satisfação dos seus desejos. Todas as presenças naturais não nos bastam, temos a necessidade humana de povoar ensejos com algo que nos cative e nos envolva e assim justifique nossa condição de reformadores da realidade, nenhum animal irracional possui essa capacidade, portanto não devemos criar uma proximidade com eles nesse critério, temos raciocínio.



Em tudo isso somos crianças perdidas nesse universo de possibilidades e de trapaças onde nossas esperanças flutuam ao vento primordial que acaricia e acoça dependendo do seu humor multifacetado onde os objetivos colidem com propósitos apena para causar contrariedade na textura do tempo. E em tudo isso tem também a religião, uma necessidade de estabilização psicológica mas também um eficiente método de controle, ela deveria ser como Rubem Alves define, um pássaro voando, livre e sem conflitos, pois até onde entendemos, existe apenas um Criador. Porém, uma característica bem humana é o orgulho e o desejo de estar certo. Rubem Alves diz:


Mas aí vêm os humanos com suas arapucas e gaiolas chamadas religiões. E cada uma delas diz haver conseguido prender o Pássaro Encantado em gaiolas de palavras, de pedra, de ritos e magia. E cadas uma delas afirma que seu pássaro engaiolado é o único Pássaro Encantado verdadeiro…”.


Portanto, somos complicados, complexos e próximos ao conflito e ao separatismo. Acredito que tudo faça parte do teste, da avaliação de um produto, de algo que mereça tanto sacrifício. Ou algo ou alguém aprecia desperdício de energia o suficiente para perder tempo com alguma coisa que parece não ter a mínima chance de dar certo.





Gerson Ferreira Filho.


ADM 20 – 91992 CRA – RJ.



Citação:


A eternidade numa hora. Rubem Alves. Editora Paidós.



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