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Papel e tinta.
Escrever, criar textos, organizar a realidade em letras, algumas vezes usar a criatividade literária e introduzir sonho e lembranças adaptadas ao momento onde se aplica a imaginação. Os russos foram especialistas nessa arte, dois deles Dostoiévski e Tolstoi até exageraram nesse campo. Para os que desejam possuir uma boa cultura, ler o que escreveram se torna obrigação. Detalhistas de grande desempenho fazem o leitor ingressar em outra época, em outro período de tempo registrado meticulosamente nos seus livros. Lê-los não é simples, pois se trata de um exercício de habilidades no campo da arquitetura mental, onde cenários serão construídos conforme o aprofundamento no texto. Claro, textos tão complexos foram criados em ambiente favorável, numa época sem distrações, e num clima onde lá fora no inverno estava a menos vinte graus. Mas dificuldades existiam, a maquina de escrever ainda não tinha sido inventada, eles escreviam em papel, enormes pilhas de papel que se transformariam em livros, não existia rádio ou outra qualquer facilidade, além de uma lareira para conforto e uma escrivaninha para o trabalho. O que se percebe de toda informação que passaram é o desenho social da sociedade russa daqueles dias, uma sociedade hierarquizada entre nobres, aristocratas e camponeses, o povo de forma geral. Essa parte quase sem direitos e acossada por uma aristocracia infame, até parece o Brasil de hoje, sim existem similaridades amplas. O Dostoiévski e o Tolstoi possuem estilos ligeiramente diferentes de narrar os fatos, o primeiro considero algo como a mecânica dos fluidos: possui um texto turbulento, o segundo Tolstoi, um deslocamento laminar, mais agradável e mais fácil. Ambos complexos e brutos quando necessário e incisivos na descrição do cenário e do comportamento humano. Numa sociedade onde não existia muito o que fazer, essa aristocracia gastava suas horas de tédio em reuniões, chás, e vodca, um momento para falar da vida dos outros, relatar acontecimentos políticos e contar a respeito de viagens ao exterior. Claro, tudo dentro de uma etiqueta de comportamento específica de época. Muitos personagens viviam de resultados de propriedades rurais, ou de escrever, e claro, da vida militar que proporciona um bom soldo para altas patentes. E claro, os oportunistas e aproveitadores, que numa sociedade onde a cultura, que deveria ser muito limitada na época dava oportunidades aos que possuíam um bom transito nessa área. Vivia-se também de aparências, os camponeses eram os únicos sem acesso a alguma qualidade de vida, apenas eram componentes de cenário. Este ambiente é bem representado no livro Os demônios de Dostoiévski, que imprime um claro desassossego social nos relacionamentos. Que se esgarçam de acordo com expectativas fragilizadas dos personagens. Como o narrado em certo trecho do livro a respeito de um de seus protagonistas:
“- Espera, aguarda mais um pouco. Ele é um maricas, mas para ti é melhor. Aliás um maricas lastimável, não valeria absolutamente a pena nenhuma mulher amá-lo. Entretanto ele merece ser amado pelo desamparo, e tu deves amá-lo pelo desamparo. Estás entendendo?”.
O ser humano não muda muito através das eras, qualquer convívio social tem suas particularidades padrão, seja lá onde for. Atender as expectativas do grupo ou dos mais próximos se torna uma exigência, ou será julgado por aquilo que não oferece. Mesmo que seja de relacionamentos extremamente confiáveis. Ao homem se exige ao menos ímpeto e ousadia, quando vocês lerem o livro entenderão. Aqui eu ofereço apenas um incentivo para que mergulhem em literatura de alto impacto. Quanto aos camponeses, estes apenas sobreviviam com muita dificuldade, excluídos de qualquer benéfico, a luta pela sobrevivência naquela sociedade era cruel, Não podemos estranhar que anos depois explodiu a revolução comunista demolindo a monarquia e toda aristocracia, aquilo que eles, a aristocracia não via, acabou por engolir a todos. Ignorar a maior parte da sociedade e viver em negação dos problemas que acontecem a volta não é um bom negócio, coisas assim geram revolta que se alimentadas no momento exato, incendeiam todo um estilo de vida. A coisa fica mais explicita no livro de Tolstoi Ressurreição, nesse trabalho ele descreve as agruras de uma jovem mulher que se envolve em determinado momento da vida com um crime supostamente cometido por ela. Com inspiração pessoal , de ocorrências amorosas da sua juventude onde homens e rapazes bem nascidos e com alguma condição social razoável se serviam sexualmente das camponesas jovens e belas, claro, sem compromisso. Este livro serve de comparação com nosso sistema jurídico atual, as semelhanças são inevitáveis de se encontrar, o mesmo ritmo de privilégios, a importância do quanto dinheiro você tem, e o peso dos bons relacionamentos na finalização e consequências como resultado esperado. Nada mudou, ao menos se comparando com nosso país atualmente, o procedimento comportamental da justiça é exatamente o mesmo. Para produzir essa obra Tolstoi se valeu da amizade com um juiz e com varias visitas ao judiciário e seus julgamentos de época. Procurou assim ser bastante fiel ao procedimento e comportamento do conjunto de justiça da época.
Sendo assim, este livro conta a trajetória de vida de uma jovem camponesa dentro daquela realidade de abandono e quase miséria da Rússia pré-revolução socialista, lá por 1885 a 1890. O livro é de um detalhamento singular e severo quanto aos pormenores de toda a narrativa que envolve a “eficiência” de um judiciário que julga conforme a classe o pagamento de advogados bem relacionados na estrutura de justiça. O autor insere uma curiosidade mórbida, o juiz que julga a protagonista, no passado, já havia se servido sexualmente dela na juventude, o que confere um ar constrangedor, de certa forma no julgamento. Numa passagem do livro fica evidente que o alvo principal do livro é esse:
“São severos porque você não tem dinheiro. Se fosse uma endinheirada e tivesse um advogado daqueles bons, aposto que tinham absolvido – disse Korabliova”.
Terá sido esse comportamento um bom contribuinte para os eventos desastrosos de mais umas décadas para frente, que provocou o colapso político russo? Se torna bom analisar os eventos históricos para reparar como exageros e licenciosidades podem levar a destinos terríveis de uma sociedade. A revolução comunista triturou toda uma geração, de Lênin a Stálin não sobrou quase ninguém dessa organização social anterior ao desastre revolucionário. Uma organização insensível e corrupta, onde privilegiados manipulavam as regras e não se importavam com o sofrimento da maioria. Bom, não irei contar para vocês mais detalhes, o meu propósito aqui é incentivar a todos vocês o mergulho nessa literatura densa, encorpada e que irá se tornar um benefício intelectual de grande porte.
Gerson Ferreira Filho.
ADM 20 – 91992 CRA – RJ.
Citação:
Os
demônios Fiódor Dostoiévisk. Editora 34.
Ressureição. Liev Tolstói. Companhia das Letras.
A maioria dessas crônicas estão em áudio no meu canal do Telegram. Que se chama também Entretanto e pode ser acessado no link abaixo. Uma abordagem mais personalizada do texto na voz do autor.
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